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Existem aqueles que por considerarem suas vidas exemplificações de uma perfeição existencial, desejam altruisticamente que todos os mais desfavorecidos, ou melhor, os mais desafortunados, desfrutem de seus mares de rosas. Estes, infelizmente não compreendem o singular raciocínio que condiz ao fato de que muitas vezes, na maioria delas na verdade, há mais prazeres, mais belezas e tudo mais o que provoca o riso, ou até quem sabe lágrimas de alegria, nas coisas esquecidas por estes mesmo que vêem belezas nas rosas e deixam em algum canto o querer encontrar belezas na terra na qual as benditas rosas nascem.
Em um beco imundo uma criança, esfarrapada, negra por azar e sujeira, chorava nos braços do velho mendigo Firmino:
- Eu quero minha mãe!
- Calma criança, eu já lhe disse que logo sua mãe estará de volta.
- Faz mais de uma hora que tu disse a mesma coisa, e ela não veio.
A criança, desvencilhou-se dos braços de Firmino, fitou-o com seus olhos grandes e tristes; sem choro, sem grito ou qualquer espalhafato, apenas o beiço pedinte da infância.
- Eu tenho saudades.
- Ah! Minha criança, abraça o tio Firmino.
- Não! Eu quero minha mãe!
O pequeno ergueu-se feito a coisinha sem limites e petulante que era, e passou a gritar repetidamente seu maior querer:
- Eu quero minha mãe! Eu quero minha mãe! Eu quero...
Firmino, sorriu ao ver aquele toco de ossos ínfimo, crendo ser o mais robusto dos gigantes. O velho sentiu-se oprimido, apesar de achar graça da situação, compreendia que quando um gravadorzinho daqueles iniciava seu pedido, ou se satisfazia seu pedido, ou se dava uso da astúcia. Firmino possuía apenas a astúcia.
- Pequeno! Olhe aqui meu pequeno, tenho algo pra ti.
- Eu quero minha mãe!
- Venha aqui. Venha que eu tenho certeza de que tu vai gostar.
Os olhos infantes se arregalaram enquanto a barriga seca deu seu grito.
- É uma torta de bolacha?
- Não minha criança, sente aqui.
O menino foi se aproximando de Firmino, impulsionado apenas por esta força tão insignificante chamada curiosidade. Sentou-se em seu lado.
- Criança, você está com saudades de sua mãe, não está?
- Sim.
- Etão lhe contarei uma história de saudades.
- Ah! Eu queria minha mãe, ou uma torta de bolacha.
O inconsolável foi se erguendo para novamente se transformar em um gravador, quando Firmino puxou-o para si.
- Não! O senhor fique aqui que agora te contarei uma história.
Novamente o beiço.
- Há muito tempo, pequeno, quando este velho ainda tinha todos os dentes na boca, eu conheci uma bela dama. A mais bela de todas!
- Ela era muito bonita mesmo?
- Criança... qual a coisa mais bonita que já viu?
- A minha mãe... e uma torta de bolacha!
- Meu deus. Olha, imagine sua mãe toda lambuzada de torta de bolacha.
- Ta.
- Ela era tão bonita quanto isto.
- bah!
- Sim, ela tinha cabelos negros, pele muito branca... como se diz? Áurea! E gostava de mim, gostava muito! Só que um dia foi embora.
- Mas ela não gostava de ti?
- Sim.
- Então por que ela foi embora?
- Olhe, muitas vezes... muitas vezes mesmo! Coisas acontecem e outras se modificam. E também o senhorzinho não sabe de nada. Não entenderia metade do que teria de te explicar.
- Então ela parou de gostar de ti?
- Sim, exatamente o que aconteceu.
- Hum. Mas por quê?
- Minha bela dama foi para Argentina e me trocou por um dançarino de tango.
- Tongo?!
- Não, tango minha criança. Tango!
Agora foi a vez de Firmino, erguer-se com a sinergia da juventude que não lhe pertencia mais. O menino apresentou certo espanto quando viu Firmino solfejando um tango muito tocado em um filme da época e, agarrou um pedaço de madeira do chão e lhe abraçou sensualmente como abraçaria seu belo desgosto. Ele, rodopiava e jogava a madeira de uma lado a outro ao compasso de seu solfejo precário.
- Criança! Agarre sua dama e dance.
- Eu não sei dançar tongo.
O velho tocou o pedaço de pau longe, estendeu sua mão calejada ao piá. Ele não relutou, agarrou firme a mão de Firmino e se entregou à dança. Os dois rodopiaram... Sim, feito dois peões, girando e girando.
- Firmino, tu é engraçado!
- Não! Olhe para o céu! Olhe para o céu! Vê as estrelas?
- Sim, elas estão girando! E brilham muito.
- Elas são engraçadas, eternamente em um infindável brilhar sem saber para quem brilhar.
Era verão e nunca em toda história da humanidade houve um dia tão repleto de belezas naturais. Estavam sentados numa pequena mezinha circular, não havia mais nada naquele espaço além da mezinha, duas cadeiras confortáveis e uma planície deslumbrante de perder de vista. Um vasto campo, poucas árvores ao longe, e uma, devo salientar, a mais bela de todas fazendo sombra aos dois. Claro! Como pude me esquecer, uma leve brisa esvoaçava os belos cabelos negros da pequena que disse:
- Faz muito tempo. Mas sabe, mesmo que tenham se passados muitos anos... - sorriu timidamente.
- O que foi? Fala.
- Não, nada.
- Para com isso e fala.
- É que eu vou repetir a frase mais dita no mundo.
Alfonso segurou em sua mão e os dois repetiram juntos: "Parece que tudo foi ontem!".
- É verdade. Se essa frase é a mais repetida no mundo, só é porque justamente é a mais verdadeira.
Ela fez um sinal de reprovação com a cabeça e tirou a mão de Alfonso da sua.
- Tu não muda mesmo. Sempre pensando e pensando...
- Sim, mas fazer o que? Eu sou assim - pegou novamente em sua mão, olhou-a por alguns segundos - desse jeito mesmo. Tu me conhece.
- Eu sei.
Abraçaram-se por um longo tempo, tempo que deixou de existir enquanto estavam um colado no outro. Ficaram ali, contemplando as longínquas planícies, absortos por tantas belezas. O sol iluminava tudo verticalmente banhando todo verde de áureos reflexos. As nuvens, tão simples em suas estruturas desestruturadas, mutáveis ao sabor dos sonhos, vagavam um rumo desconhecido e intermitente. Mas seus olhos, não contemplavam exatamente tudo aquilo, seus olhos estavam no passado. Alfonso disse:
- Sabe, eu tenho saudades.
- Eu não - ela sorriu.
- Não!
- Não, não tenho nenhuma.
- Sim, tu continua a mesma também, sempre tão sentimental.
Ficaram em silêncio por alguns instantes, o vento soprava mais forte.
- Alfonso...
- O quê?
- Por que tu gosta de mim?
Alfonso suspirou profundamente, coçou a barba, despreguiçou-se e disse:
- Te lembra da primeira vez em que conversamos?
- Não.
E foi assim que acabou o reencontro de mais de dez anos. Ficaram mais algum tempo sentados na mezinha, sorrindo, sorrindo amparados pela inocência de algo que até hoje não sabem muito bem do que se tratara. Algo impalpável, sem nome, indescritível senão para os dois. E se fossemos questioná-los sobre a tal coisa, o que diriam? Diriam que de tudo o que já sentiram, esse foi o único sentimento indigno de qualquer pensamento. Digno apenas do silêncio e sua perfeição.
Pensamento de José Tristonho
"Não sei se nasci na época errada ou se nunca estaria certo em época nenhuma. Nem mais nas verdades intransponíveis das coisas óbvias estou certo; estou certo de coisa alguma. Mas danem-se os simbolismos e subjetivismos que mal compreendo, e seja adulada toda ignorância que ainda me resta. Criarei um altar de rocha cravejado de britas em meu interior, e nele, estará magnanimamente posicionado tudo o que ainda não sei, tudo que me resta saber e não tenho disposição em aprender. E todas essas coisas inexistente, serviram-me de impulso contundente, para o salto de todos os dias ao abissal abismo do ser".
Penumbra e a fraca luz de um poste, montes de lixo e o odor insuportável de dejetos de mendigos, absorventes usados, preservativos insuflados do que poderia vir a ser vida e dois caras armados planejando um assalto... sim, eles estavam em um beco qualquer.
- Você conhece o lugar?
- Hei, fique calmo. É apenas um posto de gasolina. - enquanto acendia um cigarro sorriu ironicamente - Seu primeiro posto de gasolina?
- Cara eu já roubei mais postos de gasolina do que você pode imaginar.
- Bom saber, agora sei com que tipo de escroto estou lidando.
Bom, agora chegou o momento em que acontecerá algo de interessante, isto é, provavelmente alguém vai morrer, ou apenas levar uns socos, mas o caso circunda o fato de que vocês necessitam ter pelo menos uma parca idéia do rosto jovial que levou uma coronhada bem no meio da cara. Como antecipei, ele era jovem, jovem e tão inexperiente que havia assaltado apenas postos de gasolina. Foram muitos, não podemos negar, porém, postos de gasolina são para maricas.
- Seu velho de merda! - puxou a arma - Ninguém me chama de escroto.
Joe foi mais rápido, mais esperto. No exato momento em que o rapaz apontou a porra da arma em sua cara, ele agarrou aquele mão inexperiente e com bruta violência esmago-a rente a parede. Coincidências, é necessário mais que esperteza para se estar vivo, é preciso ter sorte. Se não fosse apenas a pancada em sua mão, que fez com que a arma voasse longe, havia um pedaço de ferro saliente na parede que lhe perfurou a palma deixando-o semi-crucificado.
- Merda! Seu velho de merda!
Joe tirou sua arma da jaqueta e imediatamente deferiu uma coronhada milimetricamente posicionada entre os olhos e acima do nariz. O rapaz desmaiou, não caiu no chão, ficou pendurado pelo ferro em sua mão.
- Crianças.
Acendeu outro cigarro e fez o que premeditadamente decidira. Encontrou sem muitas dificuldades a arma do semi-crucificado, juntou-a e antes de sair do beco deu uma olhada no pobre rapaz enganado e lavado de sangue.
- Crianças.
Saiu pelas ruas sorrindo e com duas armas na jaqueta. O posto? Apenas um pretexto muito convincente para roubar um ladrão medíocre. Joe já tinha estrada, estava acostumado a grandes assaltos, assassinatos de gente importante, sequestros milionários, tipos de crimes que dignificam um homem. Ele tinha um lema: "Se for cometer um crime, cometa um que você não se envergonhe de conta-lo para seu companheiro de cela". Foi até uma cabine telefônica próxima do beco, haviam duas senhoras na fila. Pouco atraentes devo salientar. Uma delas perguntou:
- Tem horas cowboy?
- Todas.
Ela sorriu feito uma criança e fitou a tímida amiga.
- Quero apenas a de agora.
- Claro, mas por favor, antes eu devo me apresentar. Joe, Joe o cawboy.
Ergueu a mão sobre a cabeça e fez reverência como se estivesse com um chapéu. Nesse pequeno gesto, conquistou as duas que não paravam mais de rir. Logo após um grito:
- Ninguém me chama de escroto!
Sim, era o garoto enfurecido querendo seu brinquedo roubado. Para surpresa de Joe, o infante ladrão era precavido, tinha uma pequena arma escondida na meia. Ele disparou quatro vezes com sua mão esquerda, enquanto da outra uma fina linha de sangue produzia uma poça. O primeiro tiro passou longe de seu alvo, e foi direto na cabeça de um homem que ocupava a cabine telefônica. Uma das senhoras conseguiu sair correndo ilesa dos disparos, mas a outra, a que queria saber as horas, morreu sem saber se chegaria em casa a tempo da novela ou não, quando Joe usou-a como escudo para proteger-se das três balas que acertaram o corpulento tronco.
A arma do mequetrefe estalou o gatinho mas não haviam mais balas. Joe largou a mulher que caiu feito o monte de carne que era, tirou as duas armas da jaqueta e esvaziou-as no cara. A cada tiro que dava aproximava-se mais do ladrãozinho já sem vida no chão, e a um palmo de distância, parou de atirar, olhou bem para aquela face jovem observando o nada, sorriu...
- Crianças.
Guardou sua arma e verificou que na roubada, restava apenas uma única bala, exatamente a que ele necessitava. Mirou com calma no rosto do rapaz, olhou a sua volta e verificou que algumas pessoas que estavam no posto acompanhavam a brincadeira de longe, um segundo de silêncio e depois, a certeza de um ladrão medíocre a menos nas ruas.
Gritos, sirenes, polícia e um velho ladrão reaprendendo a correr.
PULP FICTION
Querido diário, eu estou trincada de tanta cocaína que é melhor nem falar muito. Como se isso fosse possível eu não consigo parar de falar até porque eu não teria motivo nenhum para falar... espera aí eu vou acender um cigarro. Ta acendi. Mas então... Ah! Claro, eu tenho que falar que dei uma volta com um capanga do Marsellus Um tal de Vincent, que por sinal dança muito. É fomos no Jackrabbit e tomei um milk shake de cinco dólares, ele tomou junto comigo, e no mesmo canudinho. Eu também não posso me esquecer de contar que tomei uma overdose de heroína. Espera aí, eu vou fazer mais uma linha.
- God damage!
E o Vincent me enfiou... Só mais uma linha.
- God! Damage!
Uma agulha. Ele me enfiou uma agulha no meio do peito. Agora tchau diário, eu vou treinar uns paços de twist.